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Período De Inserção Na Educação Infantil: Sutilezas E Minúcias De Um Momento Relevante Para Crianças, Famílias E Professores

Ao longo da vida nos depararemos com muitos momentos de inserção. Sempre que nos encontramos em um novo ambiente, com diferentes regras e pessoas, até então desconhecidas, passamos por um período de inclusão. Pode ser um novo trabalho, iniciar em um grupo de atividades físicas ou artísticas, passar a conviver com uma nova família ou mudar de cidade. Esses e tantos outros exemplos explicitam ocasiões de inserção que acontecessem com todos, de um modo ou de outro.

Na infância, as primeiras experiências de inserção não ocorrem, necessariamente, apenas quando a criança inicia em uma escola. Isso porque nesse espaço formal de educação haverá sempre uma nova etapa, com novos professores e muitas vezes novos amigos. Portanto, cada ano será inaugural, desafiador e carregado de questões.

Iniciar na escola é um processo importante para todos os envolvidos – pais ou responsáveis, crianças e professores. A chegada em um ambiente escolar e a consequente separação da família nem sempre será um processo tranquilo, pois, além do contato com um novo grupo de pessoas (entre colegas, professores e demais profissionais da instituição), a criança se envolverá em uma dinâmica diferente da que estava habituada enquanto convivia no seu ambiente familiar, um lugar com outras regras e experiências, distintas das que costuma vivenciar em casa.

Salienta-se que quando ocorre a primeira transição da casa para a escola, é comum os pais sentirem algumas inseguranças ou experimentarem sentimentos que os embaraçam e, até mesmo, amedrontam (ROSSETTI-FERREIRA et. al., 1994). Por esse motivo, é importante que desde a primeira visita à escola as famílias recebam muita atenção, conheçam todo o espaço, a proposta pedagógica e tenham tempo para esclarecer suas dúvidas.

É fundamental informar aos pais, ou responsáveis, que não há um período delimitado nesse processo. A criança vai compreendendo a nova rotina, criando vínculo com outros adultos, conhecendo novos amigos e, aos poucos, sentindo-se segura. Algumas crianças ficam bem já na primeira semana, outras precisam de mais tempo. Além disso, nem sempre o processo ocorre de forma linear: algumas crianças ficam bem na primeira semana, mas depois de alguns dias choram, sentindo falta de seus familiares. Em alguns casos, crianças que já tiveram experiências confiantes de separação, podem passar por essa transição com mais tranquilidade, dependendo sempre do contexto de cada criança.

Acolher bem a família, especialmente convidando-a para permanecer na escola o tempo que for necessário, facilitará a aproximação com os professores, criando vínculos e beneficiando o bem-estar da criança (BOVE, 2002). Essas primeiras aproximações entre família e escola influenciarão na convivência que se estabelecerá entre todos ao longo do ano.

Aos professores caberá a importante tarefa de um planejamento bem elaborado, que envolva não só as situações de aprendizagens, mas o procedimento com as inseguranças que possam surgir ao longo do processo. Consideramos também as crianças que já frequentam a escola e que devem receber atenção e planejamento diferenciado, já que estão num novo grupo, conhecendo o professor e, muitas vezes, novos colegas.

 

COMO A ESCOLA PODE SE ORGANIZAR PARA RECEBER AS CRIANÇAS E SUAS FAMÍLIAS?

  • Elaborar um calendário com horário reduzido para as primeiras semanas e organizar um espaço para as famílias se acomodarem enquanto permanecem na escola.
  • Realizar reunião com as novas famílias, com o objetivo de esclarecer sobre a importância do período de inserção e o modo como a escola organiza esse momento. Nesse processo é importante favorecer o diálogo com as famílias e demonstrar disponibilidade para esclarecer as dúvidas e para escutar suas demandas.
  • Estruturar entrevistas dos professores com os pais a fim de obter informações sobre a criança, tais como hábitos, rotina, preferências, rede de apoio, entre outros aspectos. É necessário estabelecer um horário de aproximadamente uma hora para cada família, quando o professor terá em mãos um roteiro ou questionário com perguntas que favorecerão conhecer melhor cada criança e suas singularidades. Ao final da entrevista, entrega-se o calendário do período de inserção com horário reduzido e solicita-se o acompanhamento de um familiar no decorrer das primeiras semanas, ressaltando o cuidado em ficarem de sobreaviso, caso se torne necessário buscar a criança mais cedo.

 

COMO CONDUZIR COM QUALIDADE O PERÍODO DE INSERÇÃO COM AS CRIANÇAS E SUAS FAMÍLIAS?

  • Para estabelecer vínculo, é importante que a criança seja recebida diariamente pela mesma equipe de professores e auxiliares.
  • Todas as crianças merecem dedicação, não apenas as que choram. Algumas não demonstram desconforto chorando, portanto professores e auxiliares precisam se aproximar e dar atenção a todos.
  • Pertences pessoais, como objetos de apego (brinquedos, panos ou chupetas) auxiliam e favorecem a segurança emocional. Nesse período, a criança pode trazer consigo alguns desses objetos.
  • É imprescindível que o professor acompanhe cada criança e saiba responder aos pais as perguntas que rotineiramente são voltadas para as necessidades básicas, tais como alimentação, higiene e sono. É importante o professor ter em mãos um caderno, fichas ou um bloco de anotações para registrar alguns aspectos importantes que podem servir para reflexão sobre o processo. A prática de fazer apontamentos sobre as individualidades das crianças e o movimento do grupo deve iniciar no primeiro dia letivo.
  • É fundamental o professor demonstrar segurança para os pais, esclarecendo possíveis dúvidas que possam surgir e evidenciando conhecimento acerca de sua função pedagógica.
  • As orientações durante a reunião coletiva e individual devem ser lembradas oportunamente. Alguns pais entendem que ao saírem despercebidos evitam o sofrimento de seus filhos, mas não compreendem que esse fato pode gerar mais insegurança; outros precisam se assegurar, diariamente, de que frequentar a escola pode possibilitar inúmeros benefícios para a criança, entre os quais destaca-se a importância da convivência com outras crianças e adultos.

 

SUGESTÕES DE ATIVIDADES

Os primeiros planejamentos devem se voltar para ao período de inserção e certamente cada professor planejará conforme a faixa etária das crianças. Organize narrações de histórias (com livros, objetos e tecidos ou projetor); rodas de música com dança ou instrumentos musicais; narração de poesias; desenhos com giz de quadro nas calçadas; desenho com palitos de picolé na areia do parque; massinha de modelar (preferencialmente caseira); argila com elementos da natureza (gravetos, sementes e folhas secas); brincadeira de água e areia no parque, para fazerem castelos, comidas ou criarem diferentes enredos; pinturas com tintas naturais (feitas com cenoura, beterraba, açafrão e couve); pintura com guache em folhas grandes de cartolina; pintura com borrifadores e água colorida com corante alimentício (faça um varal com cartolinas ou tiras grandes de papel toalha e deixe na altura das crianças para elas borrifarem e pintarem); brincadeira de lavar loucinhas; bolhas de sabão; e mesa de jogos com quebra-cabeça, jogo da memória ou jogos de montar.

 

REFERÊNCIAS

BOVE, C. Inserimento: uma estratégia para delicadamente iniciar relacionamentos e comunicações. In.: GANDINI, L.; EDWARDS, C. B. A Abordagem Italiana à Educação Infantil. Porto Alegre: Artmed, 2002. p. 134-149.

ROSSETTI-FERREIRA et al. A creche enquanto contexto possível de desenvolvimento da criança pequena. Revista Brasileira de Crescimento e Desenvolvimento, v. IV, n. 2, 1994, p. 35-40.

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