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Por Que (Não) Planejar Por Datas Comemorativas?

No histórico dos diferentes modos de planejar na educação infantil, encontramos aquele que se fundamenta e se organiza por meio das datas comemorativas. Para algumas escolas, esse modelo ressoa como algo distante; para outras, é tão comum que a cada ano acrescentam uma comemoração diferente, garantindo mais uma “atividade”, ou mais um período de atividades para preencher o tempo das crianças.

Com base em um calendário de datas festivas, anualmente entra no planejamento o Carnaval, a Páscoa, o Dia do Índio, Tiradentes, o Dia das Mães, as Festas Juninas, Dia dos Pais, Dia do Soldado, Dia do Folclore, Dia da Árvore, Natal… e tantas outras que os professores decidirem incluir. Consequentemente, uma criança que fica em uma escola com essa perspectiva vivenciará todos os anos as mesmas propostas. Alguma atividade poderá ser alterada de um ano para o outro, mas esse tipo de prática tem sempre o mesmo “pano de fundo”, o que limita e empobrece o conhecimento, subestima a capacidade da criança e rejeita sua participação e sua capacidade autoral (OSTETTO, 2000).

Esse modelo de planejamento traz em seu bojo uma prática acrítica e superficial. Afinal, qual é o motivo de pintar uma criança e colocar-lhe orelhas de coelho? Qual o significado de apenas pintá-las de índio e pôr em suas cabeças um cocar? Qual a razão de comemorar o Dia das Mães ou dos Pais na escola, muitas vezes com horas exaustivas de ensaio para preparação de uma dança? Por que razão gastar uma ampla quantidade de material, que deveria ser de uso exclusivo das crianças, em decorações natalinas, com apenas um mês para encerrar o ano letivo? Por que insistir em inserir datas comerciais e religiosas no planejamento de uma escola?

O grande problema do trabalho com as datas comemorativas, que muitos ainda não compreendem, é que elas se convertem em pretexto para o professor desenvolver temas de estudo, ou temas geradores. Desse modo, uma determinada data a ser comemorada é frequentemente antecipada ou postergada com atividades que fazem referência a ela. São propostas amiúde carentes de conhecimento e alicerçadas em comemorações que possuem um sentido complexo e abstrato, difícil para as crianças pequenas compreenderem.

Algumas datas são históricas e culturais, outras são meramente comerciais. Com o advento do capitalismo e de uma sociabilidade em que “tudo” pode ser revertido em lucro, datas históricas também se tornaram comerciais e outras foram criadas com o legítimo objetivo de vender e lucrar. Não negaremos as datas derivadas de lutas históricas e é importante destacá-las em seus aspectos autênticos, contextualizando sua gênese. Contudo, poderíamos nos perguntar: será que na educação infantil as crianças encontram-se numa fase de desenvolvimento, tanto do ponto de vista cognitivo quanto do social, em que já estão preparadas para entender conhecimentos tão complexos e abstratos, sendo que algumas dessas datas já estão garantidas em disciplinas presentes no currículo do ensino fundamental?

No contexto das comemorações religiosas, compreendemos que aconteçam em escolas confessionais. Porém, é imprescindível que tais instituições assumam o compromisso de ensinar seu verdadeiro sentido, descartando futilidades, uma vez que defendemos a escola como um espaço formal de educação. Como o Estado é laico, as escolas públicas também o são. Diante disso, não ignoramos a existência dessas datas; porém, nos parece que a inviabilidade de haver comemorações religiosas está em não podermos abarcar a totalidade dos credos e crenças.

Entendo que as lutas históricas ocorridas possam sim ser inseridas em um projeto ou em um planejamento, desde que contempladas por uma contextualização histórica e cultural, repleta de experiências tanto científicas quanto artísticas.

 

REFERÊNCIAS

OSTETTO, Luciana Esmeralda. (Org.). Encontros e encantamentos na educação infantil: partilhando experiências de estágios. Campinas: Papirus, 2000.

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